23.1.14

como lidar com a vida.

Estava sentada, mexendo no celular. Na mesa, anotações a serem estudadas, que ela ignorava. Ainda eram dez horas, mas exprimiu um bocejo.

- Ei.

A voz fez a garota ter um sobressalto. Alarmada pela figura que se materializou no seu quarto, teve súbita vergonha de estar apenas de sutiã e calcinha. Começou imediatamente a por a blusa que estava na cadeira, estirada, enquanto percebia estar estranhamente calma depois do susto inicial.

- Mas que porra é essa?

Ela fez a pergunta, vaga, sem saber por onde começar. Estava ali, de pé, trajando apenas uma blusa velha por cima da roupa íntima, encarando um rapaz de origem desconhecida. Pensou se estava delirando, ao analisar a situação.

- Sei porque você está naturalmente tranquila, apesar de saber que esse momento é um pouco não convencional. Sou uma projeção da sua consciência, mas onisciente. Hoje, agora, você vai escolher seu destino.
- Agora?
- Agora.
- Posso beber um copo de água antes? Você também quer?
- Para de procrastinar. Sei do seu truque de beber água. A cada parágrafo do seu estudo, você decide que precisa beber água.

Ela teve de concordar. Sentou-se, derrotada.

- Escolher meu destino?
- É. Você se vê com duas opções para agora. Ou você vai largar o telefone e estudar aqui no quarto, ou você vai arregar e reassistir a Sherlock na sala.

Essa ideia de ou estudar ou assistir a algo tinha cruzado sua mente há pouco.

- E se eu decidir ler um livro? Vejo um furo nas suas opções.
- Você já terminou de ler um livro hoje. O sentimento de culpa por gastar todos seus livros não lidos de uma vez iria lhe sufocar.

Era verdade.

- E como isso vai afetar o meu destino?
- Minha cara, você será assaltada nessa noite. Se você escolher estudar, ficará no quarto e viverá. Se você escolher Sherlock, vai estar na sala quando arrombarem a porta e você morrerá.
- Parece uma tentativa patética de me estimular para o estudo.
- Não é.

Ela suspirou, na cadeira. Fitava o rapaz, que ajeitava a gravata, impaciente. Ele olhou para ela, de forma interrogativa.

- A escolha óbvia seria eu viver, não? Sou nova. Ainda vou fazer alguma coisa na vida.
- Você acaba de dizer que é nova. Engraçado dizer isso, quando se tem quase diariamente crises existenciais, dizendo inclusive que está velha.
- É só porque acho que não fiz muita coisa ainda. Muita coisa que eu já deveria ter feito. Gosto da minha vida, mas me sinto meio perdida às vezes.
- E quem garante que vai fazer algo?
- Sei lá, estou na faculdade. Pelo menos terei um emprego.
- Você vai reprovar quatro cadeiras, ficar puta e desestimulada e largar a faculdade. Vai ser desempregada e vai depender financeiramente da mãe até os quarenta anos, quando sua irmã começará a lhe bancar.
- Posso ainda construir uma família.
- Você até hoje nunca teve um relacionamento de verdade, e nem vai ter algo maior. Vai se juntar com um ou outro cara, mas não será perdidamente apaixonada por nenhum deles, acho que o problema é em você, no seu genótipo. Nunca vai ter filhos. Só um gato.
- Para que me ater a esses princípios que a sociedade impõe? Não preciso de um emprego nem de família para ter uma vida. Isso tudo não significa que não vou atingir um propósito, fazer as coisas que eu deveria fazer. Posso sentir a arte, ler, ver filmes, ouvir música. Tenho amigos. Posso viajar o mundo, conhecer novas culturas.
- É lindo ver você tentar se convencer, quando no fundo já sabe do vazio de tudo, na sensatez das suas crises existenciais.

Agora ela bufou, chateada com o rapaz. É isso que a consciência faz, só sabe indicar como existe tanto a fazer, tantos planos, e quase nada realizado.

- Você não vai fazer nada disso, minha cara.
- Puta merda, e o que eu vou estar fazendo? Como vou gastar essa vida, a única vida que eu tenho?
- Sei lá. Bebendo água.

Ela se levantou.

- Então, está decidida? Você pode morrer tranquila, mesmo sem ter feito muito, ou pode viver e pelo menos saber como o Peter Capaldi será como novo Doctor.

Andou até o corredor, abrindo o armário onde estavam as toalhas. Pegou uma e jogou no ombro.

- O que você está fazendo? Vai ficar no quarto ou na sala?
- Vou tomar banho, meu caro, me vestir e sair para um barzinho com o pessoal. Às vezes, é bom não dar muitos ouvidos à consciência.

7.1.14

caixa.

Ela foi colocada em uma caixinha.

Era uma caixinha preta, e até confortável. Tinha furos, por onde se passavam os dedos das pessoas de fora. Tinha amigos de unhas muito bonitas, limpas e bem cortadas.

O mundo dela era esse, escuridão com oito fachos de luz, que vinham dos furos do cubo que vivia.

Imaginava como seria um aperto de mão. Ousava, pensando em como seria um abraço. Mas estava trancada em sua caixa, sozinha.

Os de fora nunca imaginariam que ela queria viver na luz. A caixa era estática, sem movimentos de luta para sair. Não se interessavam em tentar tirar a tampa pesada que a trancafiava. Ela sentia que fazia por merecer, a culpa era dela, de fingir ser a garota da caixa, conformada com menos que uma mão.

Eles não viam os arranhões dentro da caixa.

Eles não viam as unhas dela, todas quebradas.

-
ando meio monotemática por aqui. peço desculpas.

16.10.13

pensamentos sobre o pensamento.

Não existe algo mais fascinante que o pensamento.

Como pode algo tão abstrato nascer de algo tão físico como um punhado de sinapses? Como pode sermos tanto, estando confinados à caixa craniana?

O cérebro tem vida. De lá, nasce a personalidade, nossos sentidos, nossos devaneios. Tudo nasce de lá.

Somos neurotransmissores, e é estranho pensar nisso.

Querem acreditar que existe algo mais glorioso além do nada, do completo caos do universo. Não querem ser uma aleatoriedade. Querem ter significado. A religião nasce porque é difícil aceitar isso, e assim é com a cabeça, é difícil aceitar que tudo o que você pensa e sente é só bioquímica que acontece no seu cérebro.

Nada faz sentido.

Qual o sentido do pensamento? Por que?

A realidade existe, sem algo que trabalhe nela? O mundo existe, se não há nada que o perceba? A realidade, na verdade, é subjetiva? Porque ela reside no nosso cérebro. É interpretação.

Conexões de palavras, de ideias. Conversas que travamos com o próprio ser, consigo mesmo. Ondas só suas, batalhas que só sua massa cinzenta sabe claramente. Você pode tentar explicar, organizar as frases. Se entende a ideia central, mas não a essência pura. Porque só quem é dono do pensamento, que às vezes nem se organiza em palavras, mas em sensações, sabe de fato o que pensou.

O pensamento intriga ao ponto de refletir sobre a existência humana.

Essa trilha da cabeça é um mistério.

Susanna Kaysen fala de a cabeça ser dividida em intérpretes, um que pensa, e o outro que pensa o pensar.

Talvez o que pense o pensar seja enfim nossa alma.

É esquisito perceber que o que pensa o pensar também é um pensamento. Também é bioquímica. Também está preso no nosso cérebro. Tudo, tudo é intracorpóreo. E por tudo ser intracorpóreo, a existência fascina, e o universo fascina, e como podemos existir no meio dessa entropia fascina.

Somos o caos estalando em sinapses.

Somos teias incompreensíveis.

Somos sem sentido algum.

Só o fascínio nos mantém, com uma pergunta.

Como pode?
-



não costumo postar textos assim por aqui, fluxos de ideias. costumo postar contos. como faz muito tempo que não publico nada, abri essa espécie de exceção.

8.9.13

uma observação:

Posso passar um longo tempo sem postar.
Nunca passo um longo tempo sem escrever.

21.4.13

pés descalços.

A cortina aberta deixava um facho de luz entrar no quarto, iluminando a cama dela. Sentindo a luz tocar no rosto, ela acordou, permanecendo imóvel por alguns instantes antes de a força de vontade acordar também.

Esticou-se, pôs os pés para fora da cama e pisou no chão.

O azulejo era frio.

Olhou para o cantinho do quarto, onde ficavam suas sapatilhas. Ela sorriu por nunca as ter usado.

Gostava de andar descalça, porque assim se sentia livre, se sentia ela mesma. Gostava de conhecer o chão que pisava. O orgulho por estar sempre sem sapatos era parte dela também.

Alguns não achavam muito sensato, da parte dela. Pessoas andavam calçadas, afinal de contas. No seu aniversário, sempre ganhava várias meias.

Pensava, se estão se importando por eu estar descalça, é porque não são pessoas que devam estar comigo.

Um dia tinha passado por grama, asfalto e calçada quebrada antes de chegar em uma festa, onde estava o garoto alto. Ela tinha interesse por ele, conseguia imaginar a si mesma arranhando suas costas, contra uma parede.

Ele a achava bonita, mas ela andava descalça.

Se se importam com meus pés, não são para mim, dizia para si. Não aceitam meus pés nus, não precisam conviver comigo, repetia.

O orgulho dos seus pés a evitava de mancar.

Andou pelo azulejo do quarto, do corredor e da cozinha, para tomar café sentindo o que restou do frio da noite através do piso.

Dia pós dia, caminhava sentindo o ar entre seus dedos. Mas o orgulho não se sustentava como antes, não servia de base sólida como seus pés que começavam a dar passos incertos.

Questionava se o certo era ter pés descalços. Questionava sua liberdade e seus passos. Questionava se estava seguindo o caminho que deveria seguir.

Se são pessoas que importam, elas não se importarão com minha falta de sapatos, continuava o resquício de orgulho, tentando manter sua posição.

Cambaleava.

O facho de luz a acordou, naquele novo dia. As dúvidas faziam a força de vontade ter uma soneca maior que a de antes.

O azulejo deu-lhe um beijo frio antes de ela encarar as sapatilhas no cantinho do quarto.

Foi até lá e as calçou.

Passou o dia caminhando sem sentir o ar entre os dedos dos pés. A liberdade reclamava, mas o orgulho dos pés descalços vacilava.

Quando voltou para o quarto, no final do dia, estava cheia de calos. Bolhas no calcanhar.

Suspirou enquanto colocava meias para poder dormir. Elas finalmente eram usadas.

30.1.13

lacrado.

As pessoas costumavam contar sonhos e ele as escutava.

Algum amigo o telefonava e narrava histórias por horas, outro digitava palavras noite adentro pelo computador. Aquela amiga, que o chamou para um café, contou cada sobressalto do seu sonho antes de tocar em sua coxa, mexendo no cabelo com as mãos, lançando-lhe então um olhar lascivo.

Ele também tinha sonhos.

Certa manhã, acordou sorrindo. Era o que fazia quando tinha um sonho tranquilo, refletia sobre enquanto encarava o teto do seu quarto. Era um bom sonho para compartilhar. Algo além do vazio de uma manhã qualquer.

Contou para um amigo depois de uma cerveja. Contou da paz que sentiu, contou da calma dos gestos da garota do sonho, contou como sentiu a pele dela.

Só depois percebeu o corte que tinha nos dedos, seu sangue pingava na mesa do bar. Não conseguiu limpar tudo com o guardanapo vagabundo.

Seus sonhos sangravam quando revelados, ele aprendeu.

Escritores passavam seus sonhos para o papel, palestrantes dividiam sonhos com um auditório. Sonhos enfeitavam novelas. Mas ele não podia dizê-los, era anêmico em potencial.

Seu sono REM individualizado o isolava. Sempre que tentava contar para um amigo, o vermelho tingia suas roupas, o desestimulando a se abrir.

Foi quando ele estava cansado de band-aids e com a mente quase hermeticamente fechada que ele a conheceu. Tímida e de pele delicada, ele queria conhecer seus sonhos. Tornaram-se amigos.

Um dia ela despejou todo o conteúdo de um sonho para ele, toda a sua angústia noturna. Ele segurava sua mão, ouvindo o calor dela, e queria sabê-la por completo.

Queria contar seus sonhos para ela, queria se expor, deprimido por seu silêncio de guardador de sonhos.

Começou uma narrativa, nervoso.

Ela imediatamente virou-se para ele, com os olhos bem abertos, sem acreditar que iria ouvi-lo e enfim parar de supor o que ele sonhava. Nem conseguia piscar.

Ele prosseguiu com seu sonho antes lacrado. Discorreu sobre seus medos na história que preenchia suas noites.

Um filete de sangue escorria de suas orelhas e ele não ligava se sua pele iria cicatrizar ou não.

Depois, a garota deu-lhe um lenço.

29.12.12

seis horas.

Caminhava sem saber no que pensava.

Ela precisava chegar às seis horas e para isso precisou pegar um ônibus. Depois de se sentar, próxima à janela, parecia pensar sem notar, cabeça vazia sem realmente estar. Os pensamentos se guiavam por si, enquanto olhava o movimento da rua.

O vidro da janela era embaçado, via o mundo feito astigmático.

Agora, na rua, sentindo o peso da bolsa em seus ombros, via o contorno das formas e pensava se todos viam como ela.

Sereias precisam ser míopes para ver bem debaixo d'água.

Andava e não sabia mais o por que. Era como se não tivesse objetivos reais, caminhando pelo ato de caminhar, de seguir, sem refletir no que está além disso.

Só precisava chegar às seis.

Ela era máquina, inspirando e expirando, atravessando a rua e olhando a calçada quebrada.

O céu muda de cor de quanto em quanto tempo?

Na sua determinação desfocada, via um homem suado de academia vindo na sua direção, e ele tinha suas ideias, e ele tinha sua própria personalidade, e ele tinha sua história, indo para um lugar que não interessava aos passos da garota. O homem, ao vê-la, parou e pôs-se de lado para ela passar.

Tomou um susto enorme porque lembrou que não era invisível.

Por o pensamento voar tanto, ela pensou que não existia ali.

Será que a viam na rua e pensavam nas histórias que ela carregava, assim como ela fazia com os passantes? Às vezes falava sozinha ao caminhar, será que notavam?

Quando falava sozinha, inventava histórias para si, situações. Carregava sua história e suas histórias.

Parou para pensar na sua falta de pensar. Ao pensar na falta de pensar pensou que se pensa o tempo todo. Seu coração iria bater e sua mente iria pensar sempre.

Na verdade, iria parar algum dia, mas então não importaria mais. Ela não existiria. Não teria consciência para notar que não pensava.

Só faltavam poucos quarteirões.

Uma dor atravessava suas costelas, uma dor aguda. Continuou andando no mesmo ritmo, percebendo as pontadas, porque caminhar mais devagar não iria aliviá-las.

E precisava chegar às seis.

Debaixo de uma árvore, parou para atravessar a rua. Quando lançava um passo para asfalto, uma folha caiu sobre seu ombro. Assustou-se.

Olhou para a rua e viu os olhos de faróis iluminando seu rosto. Notou como o ônibus corria.

Enfim parou de pensar.

-
coloquei a tag "conto" nesse texto, mas não sei bem se isso é um conto. deve ser.